Como a tokenização vai mudar definitivamente a nossa realidade?

Alternativa que se fortalece a cada dia traz uma mudança de paradigma na sociedade de consumo e irá revolucionar a forma de como ‘recebemos’ e ‘compramos’ (ou trocamos) serviços e produtos, através de um modelo mais seguro e mais justo

A digitalização traz à humanidade uma série de facilidades e possibilidades em todos os âmbitos. Entre eles, no aspecto financeiro. No último artigo sobre dinheiro, falamos previamente sobre as moedas virtuais e a tokenização. Neste último caso, que significa transformar um ativo real em um artigo digital, em unidades criptografadas, esse item passa a ser representado como um token na rede, com o seu valor próprio. Com isso, você poderá até ‘receber’ parte do seu salário em frações de itens tokenizados, por exemplo, um carro, uma casa ou um smartphone. Da mesma forma que era difícil de imaginar que teríamos a internet em nosso bolso ou em nosso pulso, ou então poderíamos fazer compras ou transações financeiras por celulares, sem precisar ir em bancos, talvez ainda seja um pouco difícil assimilar esse novo modelo, mas com sua popularização, se tornará tão normal quanto outras revoluções pelas quais passamos.

Uma das maiores provas concretas de que a tokenização deixou de ser algo ‘do futuro’, mas sim, realidade no Brasil, é que o CEO da B3, Gilson Finkelsztain, sinalizou, em uma entrevista em novembro deste ano de 2021, que a companhia pode começar a usar blockchain na tokenização de ativos físicos, como obras de arte, imóveis e veículos. A B3 (representação de Brasil, Bolsa, Balcão) é a Bolsa de Valores oficial do Brasil, uma das principais empresas de infraestrutura de mercado financeiro no mundo — aos mais leigos, o Ibovespa, que significa ‘Índice Bovespa’, é o principal indicador do desempenho médio das cotações das ações negociadas na B3.

Como funciona a tokenização

Primeiramente, é importante esclarecer que para tokenizar algo, não há uma moeda de referência: os próprios tokens detêm o valor em relação a outras coisas. É possível tokenizar tudo, desde um simples objeto aos produtos fabricados por uma empresa. Ao fazer essa tokenização, há a sua securitização e solidificação através da rede blockchain (livro-razão público da demonstração pública de transações, de propriedades e de dívidas), a qual se vale de algoritmos criptográficos, para garantir a imutabilidade e a rastreabilidade das transações desses objetos. Na prática, a blockchain é à prova de fraudes, o que garante a total confiança nas transações de tokens, e ainda traz o benefício de baratear as transações, por não precisar de um banco, desvinculando a avaliação de risco de um agente centralizado e corruptível. E sem falar o principal: não há inflação. Serão trocas de trabalho por produtos ou serviços, em um sistema mais justo e difícil de trapacear.

Apesar de tudo isso parecer algo complexo, na prática já fazemos algo semelhante à tokenização o tempo todo: inventários. Toda loja, todo empreendimento mantém o controle de sua produção, de quantos itens eles têm, quanto de matéria-prima eles precisam. Para fabricar um carro, por exemplo, a indústria sabe quantos litros de tinta vai precisar, quantos parafusos, quantas peças de vidro, quanto de tecido, couro e plástico, bem como quantos veículos produzem por dia e quanto desses materiais vão precisar pelo período de um mês ou mais. Antes, todo esse controle estava em papéis, mas hoje, é tudo digital, tudo está facilitado em uma base de dados. É esse banco de dados que faz as contas e converte, por exemplo, a quantidade de produtos para cada unidade em uma unidade monetária. Com isso a indústria chega ao valor de produção, de quanto custa para produzir cada carro.

Empresas já fazem o inventário, têm o controle do que precisam para produzir. Nós, no nosso dia a dia, mentalmente também sabemos de nossas carências: quanto de trabalho é necessário para pagar o aluguel, quanto precisa para pagar despesas como água, luz e internet — sempre nos planejamos para deixar um valor específico para essas contas. Você sabe quanto de trabalho precisa para comer em um restaurante específico, assim como o restaurante sabe quantas refeições precisa para pagar o aluguel, para pagar suas despesas de folha salarial. Isso comprova que com a prática, com a ajuda da tecnologia (como hoje já fazemos para gerenciar nossas contas e aplicativos financeiros), a tokenização não será um ‘bicho de sete cabeças’.

Valores de referência

Para qualquer coisa que formos comprar hoje, lembre-se que há marcas e marcas. Cada marca tem seu valor agregado. Há exemplos de grandes montadoras de automóveis que detém marcas específicas de nicho, com maior valor, seja por suas características de esportividade ou luxo. Muitas peças desses carros de luxo são compartilhadas com carros de marcas co-irmãs, de menor valor agregado. Portanto, ao tokenizar, além dos materiais, também entraria em conta a demanda da marca — você pagaria à parte o token da marca. Até porque, quem decide que uma marca vale mais que a outra são as transações: não importa se uma empresa fabrica uma linha A (mais cara) de um produto e uma linha B (mais barata) se ninguém quiser ou ninguém puder comprar essa linha A. Ela não valeria nada. E o valor é relativo: o muito para alguns, é pouco para outros.

Como já mencionado, não há uma moeda de base, mas os próprios tokens detêm valor em relação a outros tokens. Lá no passado, quando não havia dinheiro e tudo funcionava por trocas, já era assim: quem construía cercas, sabia quantos ovos em troca seria justo para realizar seu trabalho. Assim como esse produtor de galinhas sabia quantos ovos seria justo trocar por grãos de milho para alimentar essas galinhas; bem como o agricultor que cultivava os grãos sabia quantos sacos de grãos precisava trocar pelo que precisasse. Tudo por causa da demanda, da quantidade que podem vender.

Se você fosse o único construtor de cercas de toda uma região, você seria muito rico, pois a demanda pelas cercas seria muito alta. E os criadores de galinha tentariam suborna-lo, dando-lhe mais ovos. Ao invés do prejuízo de ter as galinhas mortas por animais selvagens, os produtores pagariam o dobro do que outro pagaria, e assim poderia trocar por mais pães. A disparidade entre os que têm muito e os que têm pouco — neste caso, a inflação -, tem bastante a ver com a trapaça ao apresentar o valor de algo. Porém, agora temos a internet, e uma grande granja já tem um banco de dados de quantos ovos eles produzem — na prática, eles já têm, internamente, os tokens dos ovos. Com isso é possível conectar a granja de galinhas e sua contagem de ovos à máquina de fazer pão, com sua contagem de produção de pães, e assim por diante.

Hoje já estamos acostumados a trocar o trabalho pelo dinheiro, receber em números, mas na prática, já fazemos a tokenização — trocamos esses números por produtos e serviços.

Como vai funcionar o token na prática

Para ficar um pouco mais claro, vamos utilizar dois exemplos bastante práticos, de como funcionará dentro de alguns anos. Você trabalha por tempo dentro de uma indústria, uma montadora X. Não importa o quanto você produz; você é pago para ficar 8 horas trabalhando na linha de produção. Então, ao final do mês (ou da semana, como a empresa preferir pagar), você receberá em tokens X diretamente.

Outro caso corriqueiro: você vai fazer compras em um mercado Y. Hoje, nos mercados, tudo tem seu preço. No futuro, os valores dos produtos também serão em tokens! E para pagar, haverá a troca por outros tokens, de outras empresas, porque tudo estará conectado. Vamos simular uma compra, de uma garrafa de Coca-Cola, um pacote de arroz Uncle Bens, saladas e ração para cães Pedigree. Ao final, você paga, por exemplo, com 1.000 AURO (pagamento em Viralata) em tokens de garrafa de Coca-Cola, tokens de pacote de arroz (tokens de cada um dos -produtos) e mais os tokens do mercado Y, pelo serviço que esse mercado prestou (lembre-se, os tokens detêm valores sobre outros tokens, sem inflação, e são trocados por seus valores ‘puros’).

Seguindo por este exemplo, os tokens do mercado Y são trocados por AURO, assim como os tokens de Coca-Cola, arroz Uncle Bens, ração Pedigree. Todas essas empresas e os agricultores (que produziram as saladas) vão receber em AURO. Todos eles poderão trocar o AURO por produtos Viralata. E como tudo está conectado, quem quiser comprar AURO também pode comprar do agricultor, do mercado Y, da Coca-Cola. E voltando à montadora X, com um veículo tokenizado, ela pode anunciar: vendemos 10 tokens X por 10.000 AURO. E os 10.000 AURO seriam retirados de quem está disposto a vender AURO e comprar X pelo contrato inteligente.

Resumindo, você seria pago pela empresa que trabalha em seu símbolo, em seu token; se tiver mais de um emprego, será pago com diferentes tokens. Se você tentasse resolver tudo isso sozinho, fazer essa ‘conversão’, seria uma grande bagunça, mas as tecnologias e aplicativos estão aí para isso! Você poderá ver quanto de um carro X você pode pagar, quanto você tem de token X, quanto você tem de outros tokens, quanto tem do que quer comprar, e assim por diante.

Brazil’s #1 Decentralised Financial Ecosystem

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