O que a palavra ‘obrigado’ tem a ver com a história do dinheiro?

A globalização e o consumismo mudaram definitivamente a forma como vemos o dinheiro, se tornando diferente em relação ao que ele representava quando foi criado. Mas as criptomoedas e a tokenização podem trazer uma reviravolta nesta percepção e uma aproximação com as raízes

O dinheiro comanda o mundo. Significa poder. Certo? Ok, se você tiver dinheiro, você poderá comprar muita coisa, mas… bem, talvez essa seja uma visão um pouco deturpada dos propósitos para os quais ele foi criado. Para falar de dinheiro no presente é importante lembrar do passado. De um passado em que não havia dinheiro. E também do futuro, o que está por vir, e que vai mudar a forma como vemos a palavra, se aproximando mais das suas raízes.

Falar sobre dinheiro em língua portuguesa é bastante favorável por haver uma única palavra que significa muito: obrigado. Ao ouvi-la, a primeira coisa que pensamos é que se trata de uma palavra sinônimo de ‘gratidão’. Também significa isso, mas este significado surgiu como uma ‘consequência’ da raiz etimológica da palavra. Pode jogar no dicionário Michaelis para comprovar: obrigado é o particípio da raiz ‘obrigar’, que se pesquisado no mesmo dicionário, tem como primeira explicação “sujeitar-se a uma obrigação legal ou moral”. É por isso que quando alguém lhe faz algo, como agradecimento, você responde: “Te devo uma”, no sentido de “tenho uma obrigação para com você”.

Mas e o que tudo isso tem a ver com dinheiro? Exatamente tudo! Foi pontualmente para este propósito que o dinheiro foi criado. Antes de se ter dinheiro, haviam promessas. O mundo funcionava com trocas. Por exemplo simplório e grosseiro: eu construo uma cerca para você em troca de 12 dúzias de ovos. Esse era um modelo que funcionava bem o suficiente para uma comunidade pequena, onde todos os atores se conheciam — dessa forma, não seria necessário ter dinheiro ali para o bem viver. Mas voltando ao exemplo: se eu construísse essa cerca e você não entregasse os ovos, toda a vila iria saber. E você estaria condenado ao ostracismo, perderia a confiança de toda a vila. Note, portanto, que o crédito (ter crédito) significa ‘reputação’. Como todo mundo na comunidade saberia quem deve o que a quem, essa seria uma verdade criada pela comunidade, que atua como a própria reforçadora da confiança.

Onde a moeda começa a entrar é em comunidades muito grandes, para que todos os participantes possam fazer suas trocas, podendo interagir, se conhecer, terem crédito. Para fazer trocas entre diferentes comunidades, diferentes tribos, é necessário algo que tenha valor reconhecido entre eles: ouro, prata, sal — e vamos mais longe, cigarros na guerra ou na prisão. Assim foram surgindo as ‘moedas de troca’. E a razão para que elas sejam usadas não é pelo valor intrínseco: é porque a confiança nos valores independe dos atores. Ouro é valioso porque é difícil de falsificar — e não por causa seu uso na indústria. O mesmo acontece com sal. Ninguém precisa de muito sal, é apenas um caso de confiança. E neste ponto vamos para mais um desvio etimológico: é daqui que se origina a palavra ‘salário’, derivada do termo em latim ‘salarium’, que traduzia o que os soldados romanos recebiam pelos serviços prestados ao império — uma porção de sal.

Porém, nem tudo que parece simples é tão fácil de aplicar na prática. Vamos pegar um exemplo no continente americano, do Canadá. Antes da colonização europeia, os povos indígenas usavam cintos de Wampum (feitos com conchas minúsculas de moluscos marinhos) e peles de castor como moeda de troca. Inclusive quando o país começou a ser colonizado por franceses, holandeses e britânicos, tinham seu valor. Porém, toda tentativa de implementação de moeda fracassava, inicialmente nas tentativas francesas, depois nas britânicas, por haver a escassez. Outro fato que corroborava com o problema com o passar do tempo foi ter uma grande variedade de moedas, locais e estrangeiras, e instrumentos de papel. Um relato de 1820 explica o caos: um cliente comprou vegetais por seis pence e pagou com uma nota do Tesouro da Nova Escócia de £ 1. Seu troco foi de noventa e três itens: oito notas de papel de diferentes comerciantes, com valor de 5 xelins a 7 1/2 pence; uma moeda de prata; e oitenta e quatro moedas de cobre. A situação foi contornada apenas depois de adotar moedas atreladas ao dólar dos Estados Unidos, até que em 1867 o dólar canadense foi estabelecido.

Hoje, o que há, é uma troca de promessas. Dificilmente você vai ver um litro de leite trocado por um pão, mas vê trocas sendo feitas com o crédito, com algo criado para ser o objeto de troca, a ‘moeda de troca’. Ao fazer um serviço, ao vender algo que produz, você ganha crédito, e esse crédito você pode gastar ao receber outro produto ou serviço. Portanto, na prática e acima de qualquer interesse, dinheiro é a representação de dívidas.

Pare um pouco essa leitura e faça uma conta mental: quanto de dinheiro você acha que precisaria para parar de trabalhar?

Chegou a um valor aproximado? Perfeito. Para construir esse pensamento, provavelmente você pensou nas coisas que você quer comprar, certo? Nos valores dos imóveis, dos veículos, roupas, viagens, custo de vida… e depois de pensar em tudo isso, é que chegou a um valor, um número.

Esse pensamento, dentro de alguns anos, deverá mudar. Hoje, no dia a dia, você trabalha para obter dinheiro, ganhar crédito, e não receber em coisas que você quer comprar com ele. Porém, com a consolidação do cripto no mundo financeiro, um leque de oportunidades se abrirá. Há duas vertentes neste mundo virtual: além de moedas, como o Bitcoin (BTC) e o Vira-lata Finance (REAU) por exemplo, há a ‘tokenização’, que significa transformar um ativo real em um artigo digital, em unidades criptografadas (na tradução, a palavra token significa ‘símbolo’, podendo ser utilizada como ‘simbólico’ como adjetivo). Se um veículo for tokenizado, ao invés de você receber só em dinheiro pelo seu trabalho, você poderá receber parte dele em percentual, em frações daquele veículo. O benefício? É que não há inflação — o carro não ficará mais caro e o dinheiro não valerá menos. Afinal, não haverá um grande banco lucrando muitos percentuais na transação. Serão as puras trocas.

Aliás, esta é uma das propostas fundamentais do Vira-lata: tokenizar negócios. Como a blockchain é um livro-razão público da demonstração pública de transações, de propriedades e de dívidas, ela serve como a fonte de confiança nos negócios.

Mas essa tokenização e a blockchain são assuntos tão revolucionários que merecem um novo texto apenas para eles para serem detalhados da melhor forma possível…

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